Toco eu gosto de tocar na água gosto gosto gosto a mão já está na água a mão na cara o fresco a boca aberta a água escorre pelo pescoço e entra a blusa branca a ficar molhada a mão na água na cara a mão como se já não fosse minha a mão o mar a casa atrás a varanda ainda consigo não olhar.
Apanho os sapatos a seguir os collant a cabeça ainda para baixo aproximo-me sem pressa da casa onde vivo com pressa de estar na casa onde vivo com ele faço de conta que afinal já sabia que ele hoje não ia estar foi assim que ficou combinado ele não estar não estar não estar não cheira a comida ainda não cheira a comida adoro esta casa branca subo os degraus dois a dois como se ele estivesse na varanda à minha espera à minha espera à minha espera a ver-me a ver-me a ver-me a gostar de olhar a saber o que eu estava a pensar a saber a adivinhar tudo sobre mim e a gostar a gostar o mar atrás de mim à minha frente a varanda sento-me estendo a mão não olho para não ver que ele não está ali ainda não está combinámos que ainda não estava quando eu estendesse a mão naquele dia.
Um copo de vinho o vermelho escuro transparente a escorregar ainda da berma para dentro a encher a cratera de um vulcão em repouso na mesa na varanda ao pé das cadeiras ainda não olho para o lado esquerdo não me levanto a correr confirmo do lado direito que a porta grande azul está fechada fechada a casa onde vivo o mar azul à frente não tenho pressa tenho pressa de provar o vinho escolho o sítio onde coloco os lábios escolho o sítio escolho prometi que as mãos não tocam as formas redondas do copo prometi o copo é maior que a minha mão prometi que segurava o copo com uma mão apenas uma mão tenho mais força na mão direita é por isso que escolho a mão direita ainda não aprendi a segurar o copo tenho medo que o vulcão entre em irrupção a lava vermelha as pontas dos dedos a agarrar a haste tão fina a haste o copo enorme demora a chegar aos lábios demora ai é bom demoro aqui na cadeira na varanda o mar azul o vinho vermelho escuro o calor bebo sem cuidado a cor vermelha no queixo olho para baixo a blusa branca ainda limpo o queixo com gestos bruscos fecho os olhos sinto o sol ouço o vai vem do mar lembro-me do mail misterioso a ária a casa antes da casa o andar adivinho o seu corpo enquanto se afasta a camisa branca a sair da cintura o casaco no ombro do lado direito ainda não cheira a comida a casa branca onde vivo ainda não cheira a comida talvez me apeteça uma salada feita sem pressa.
Abro os olhos devagarinho franzindo-os ligeiramente a claridade ainda o raio verde fica para outro dia quando estivermos juntos penso enquanto me levanto e descanso os braços no parapeito da varanda. A chave enorme ferrugenta a fechadura a porta eu gosto de atravessar o fresco e a sombra deste corredor sem nada a não ser o fresco e a sombra o pátio o terraço por cima tão branco a convidar a convidar a convidar olho para o lado esquerdo as portas grandes da cozinha abertas para o pátio a garrafa de vinho eu sabia corro todas as divisões da casa apesar de saber que ele não está sorrio sem querer por achar maluca esta coisa do copo de vinho na varanda a garrafa na mesa da cozinha
"HOMME LIBRE. TOUJOURS TU CHÉRIRAS LA MER"
May 25, 2007
3
Posted by
cat
at
12:08 PM
0
comments
Labels: continua...
2
A casa tem uma varanda não faço ideia se está alguém nessa varanda se está alguém perto das janelas não faço ideia o que faço aqui tão próximo de espreitar uma casa que ainda não é a casa onde vivo a casa onde vivo é a seguir mais perto da curva uma pedra vou colocar-me em cima da pedra para espreitar escolhi a janela ai este cheiro este calor esta ária o mar tão perto este final de dia que maluqueira uma sala enorme com móveis desirmanados e antigos dispersos por cantos e paredes dois grandes tapetes em tons de vermelho usado o chão em madeira a luz a brincar num jogo de sombras e claridades envolventes densas o pó em desenhos verticais aqui e ali um cheiro a misturas perigosas de tão boas a convidar a provar quero entrar quero entrar quero entrar neste momento já tenho o olhar esquecido de não estar a olhar para a casa onde vivo.
Ninguém, não vejo ninguém nem um movimento nem uma sombra nem ninguém a olhar para mim e a expulsar-me desta casa que não é a casa onde vivo salto para o chão e aproximo-me de novo da estrada os miúdos continuo acompanhada principalmente por miúdos adoro quando ele veste estas calças castanhas leves a camisa branca sem gravata vou atrás dele guardo alguns metros de distância vou a olhar para ele o casaco no ombro a camisa branca também sai pela cintura do lado esquerdo do lado esquerdo a esta hora é bom sentir uma aragem a percorrer-nos é bom as mangas dobradas para cima até à curva do braço o relógio redondo hoje está com o relógio redondo os sapatos castanhos ainda se ouve a ária caminhamos descontraídos a esta hora neste caminho é impossível não caminharmos descontraídos.
Continuação de um dia bom, digo baixinho a sorrir antes de virar para a direita eu viro para a direita antes dele talvez amanhã vá atrás dele o caminho para a casa onde vivo ainda não está arranjado mas tem o desenho de um caminho tem areia e pedras pequeninas que se sentem nos pés quando andamos a casa tem um único piso e tem uma varanda com cinco degraus que dá directamente para a praia com cinco degraus gosto de me sentar nos degraus às vezes.
A casa onde vivo está pintada de branco e tem um grafiti há muito tempo que tem um grafiti uma onda azul com a curva suave e grande para dentro a desenhar uma superfície sólida e polida de tão perfeita fresca por dentro a apetecer tocar aquela parede e a espuma branca por cima a confundir-se com a cor branca da parede ninguém está a surfar aquela onda não é preciso somos nós que sarfamos aquela onda quando a olhamos assim na parede da casa onde vivo a onda está na parede do lado esquerdo no sentido da praia não não fui eu devem ter sido os miúdos mas eu deixei ficar a casa inspirada no conceito das casas por dentro todas as divisões viradas para um pátio interior o pátio interior com um lance de escadas que dá acesso a um terraço sobre as divisões em baixo a varanda comprida sobre a praia os cinco degraus a porta de entrada de madeira azul escuro pesada a porta a tinta a estalar aqui e ali.
Sigo pelo caminho até ele se confundir com a areia com a praia com a praia o mar azul a casa onde vivo descalço-me sem pensar que me estou a descalçar a areia está quente é branca a areia contorno a casa pela praia sem me voltar para ela não olho para a onda olho para o mar a maré está baixa a água vem repousar na areia com uma ternura fresca num vai vem doce com a mão direita vou empurrando os collant para baixo em gestos quase de desequilíbrio ah a pele nua sobre a areia sinto a presença da casa atrás mas não a olho guardo o olhar para depois quando já não aguentar mais não olhar gostava claro que gostava que estivesse na varanda quando me voltasse gostava claro mas sei que não está mas só vou ter a certeza quando me voltar por enquanto olho o mar com a esperança de que ele esteja na varanda.
Posted by
cat
at
12:07 PM
0
comments
Labels: continua...
1
O asfalto cinzento claro pelo sol ou pelos anos não sei prolongava-se até à curva ao fundo na berma da estrada pequenos cactos verdes alguns com a cor esbatida como margens apesar do vento empurrar areia para dentro deste traço largo com buracos aqui e ali preenchidos pela areia deste ano ou do ano passado.
Dos dois lados havia pessoas dos dois lados ao longo do caminho a mistura dos cremes e da água salgada secos na pele as pranchas de surf a tiracolo os calções compridos os fatos abertos e descaídos até à cintura ainda com o mar por cima sem poder entrar.
Eu estava de saia cinzento dark escuro mesmo e uma blusa branca àquela hora a querer sair já pela cintura os fatos abertos até à cintura o mar eu abria o segundo ou o terceiro botão aquele já próximo de em princípio não poder abrir mais botões a deixar entrar o sol e o mar que me chegava através do som e do cheiro.
Do lado direito a praia para trás ficava a vila onde trabalhava ficava o museu do futuro ficava a sala de trabalho do primeiro andar com as portas grandes abertas sobre um terraço enorme com laranjeiras e gerânios e o ar do mar e cadeiras e mesas a convidar a conversarmos e a estudar ali e a tirar os sapatos às vezes.
No final do dia o mail misterioso a desejar a continuação de um dia bom a curva mais perto já ainda este calor estes miúdos num regresso breve às casas de verão o mar azul esta ária do lado direito sempre a mesma ária misturada com o barulho das ondas a namorar a areia e o cheiro de comida misturado com o cheiro do mar sinto-me atraída tão atraída tão atraída a curva antes da curva a casa antes da casa o mail misterioso esta ária sempre a mesma ária o final do dia este calor que atravessa a blusa branca e se instala no corpo peganhento com a humidade salgada de um mar a alguns metros.
Do lado direito um caminho feito de tábuas de madeira alinhadas tão alinhadas ladeado por areia e arbustos e árvores baixinhas a casa de madeira com as janelas do piso térreo abertas e cortinas em movimentos doces aproximo-me não das janelas mais evidentes as que estão neste momento mesmo à minha frente não contorno a casa pelo lado esquerdo e acompanho as paredes com a mão como se fosse uma miúda não como se fosse um ladrão não ainda não vou olhar para esta não posso devo guardar ainda por instantes este descontrolo não ouço cães só a ária misturada com o som do mar a alguns metros.
Posted by
cat
at
11:49 AM
0
comments
Labels: continua...